Ecossocialistas para barrar o fim do mundo

Vivemos um período marcado pela convergência das crises ambiental, econômica, social, humanitária e política. O aspecto mais perigoso da crise ambiental é a catástrofe climática em andamento, uma verdadeira Emergência, que tem se acelerado pela pressão dos diversos interesses de produtores de petróleo, agronegócio e capitalistas e pelo descaso dos diversos governos. Enquanto enchentes, secas e eventos extremos se multiplicam de forma cada vez mais presente no mundo e no Brasil, o agronegócio (com desmatamento), a especulação imobiliária, o monocultivo com agrotóxicos e o uso do petróleo e de outros combustíveis fósseis se mantêm.

Apesar de falar-se muito em “transição energética”, esta, de fato, ainda não começou: em termos absolutos, o consumo de combustíveis fósseis prossegue aumentando. E os atuais conflitos no mundo, como os ataques dos Estados Unidos contra o Irã, demonstram a permanência dos combustíveis fósseis no centro da disputa geopolítica e econômica.

As propostas de transição do modelo energético que estão colocadas, por outro lado, também são absolutamente insuficientes, reeditando uma visão colonialista que busca eternizar o Sul global como ofertador de bens naturais por meio do sacrifício de povos e territórios. A continuidade da civilização humana tal como a conhecemos, e até mesmo a sobrevivência da humanidade, são colocados em risco. A perda vertiginosa de biodiversidade é outro aspecto da crise; estamos diante da sexta grande extinção de espécies que, se completada, representará uma degradação ecológica profunda no planeta.

Não é possível evitar o agravamento e a aceleração da catástrofe sem uma redução radical do consumo líquido final de energia no plano mundial – o que significa produzir menos e transportar menos globalmente. Como, ao mesmo tempo, o consumo de energia nos países mais pobres deve aumentar para atender às necessidades sociais prementes, isto deve ser compensado por uma redução maior para os mais ricos. Tudo isto é impossível nos marcos do capitalismo; uma revolução anticapitalista em um prazo curto mostra-se, mais uma vez, uma necessidade objetiva.

No plano internacional, a crise econômica iniciada em 2008 aguçou as contradições do capitalismo, produzindo um período de instabilidade prolongada. A ausência de unidade política das burguesias para a resposta à crise e os conflitos de interesse entre suas várias frações levou ao caos geopolítico global, que se desdobrou, por um lado, em uma disputa hegemônica entre Estados Unidos e China e, por outro, no ressurgimento da extrema direita como ator político relevante no mundo.

Na esfera econômica, há um declínio relativo dos Estados Unidos e, mais acentuadamente, da Europa, e uma ascensão da China. Este país já tem a maior economia do mundo (pelo critério do PIB calculado segundo a paridade do poder de compra) e avança na inovação tecnológica, já ultrapassando os EUA, neste aspecto, em algumas áreas. Os Estados Unidos mantêm, até agora, o predomínio financeiro e militar. A Rússia, débil economicamente, mas forte em termos militares, tende a se aliar à China.

A multiplicação de guerras por procuração, guerras híbridas e ameaças constantes leva a uma nova corrida armamentista com utilização crescente de novas tecnologias – em especial o uso de drones, de formas de manipulação e vigilância datificadas e de ataques cibernéticos. A fronteira do desenvolvimento tecnológico, com as plataformas e inteligência artificial, tem sido desenvolvida a partir do interesse estadunidense em manter sua hegemonia a partir de uma nova estrutura de mediação social – que reorganiza relações de sociabilidade, de trabalho e de consumo. Essa estrutura monopolista privilegia uma subjetividade individualista e aprofunda a dissolução de laços sociais, com um modelo baseado na disputa da atenção que valoriza a conflitividade e o discurso de extrema direita.
Este cenário favorece uma escalada dos conflitos militares, com destaque para o genocídio do povo palestino perpetrado pelo Estado de Israel com o apoio dos EUA, a invasão da Ucrânia pela Rússia, o conflito no Congo.

Israel tem a cumplicidade ativa dos Estados Unidos e tem se expandido tanto para os demais territórios ocupados como para o Líbano, cuja anexação territorial de parte de seu território está anunciada como projeto. Os acontecimentos dos últimos anos evidenciaram e requalificaram para muito pior o significado histórico do caráter neocolonial, profundamente violento, racista (anti-palestino) do projeto sionista que de fato prevaleceu. As resistências internas no estado de Israel são modestas e parciais e os sinais de crescente cumplicidade social e ideológica ao rompimento das mais elementares barreiras e limites humanitários são crescentes. Isso se manifesta em ações, alterações legais (estabelecimento de pena de morte para um povo), mas também comportamentais, sendo o primeiro caso de genocídio e crimes de guerra e contra a humanidade registrados recreativamente por seus próprios perpetradores.

O genocídio em curso articula questões importantes do nosso tempo e das resistências e luta: a desumanização do outro, o racismo, a articulação dos estados e aparelhos militares com as empresas de tecnologia, a misoginia, o aumento da subordinação militarizada da força de trabalho e uma nova forma de ódio e violência a crianças que ainda carece de um termo à altura. A lei internacional vai sendo superada por um novo período em que a violência mais brutal possa ser usada sem qualquer tipo de justificativa e prestação de contas.

O segundo governo Trump acentuou os esforços que já vinham sendo feitos pelos EUA para recuperar sua hegemonia, e introduziu mudanças importantes em relação a governos anteriores, mesmo, em certa medida, em relação a seu primeiro governo. Busca uma reorganização completa do capitalismo norte-americano e das relações internacionais. Já havia evidências disto desde os primeiros meses do novo governo dos EUA, mas a divulgação, no início de dezembro, de sua “Estratégia de Segurança Nacional” expôs de forma mais nítida e abrangente a orientação que está sendo posta em prática – até porque deixa de lado, em grande parte, a hipocrisia que sempre veste as formulações burguesas e diz com franqueza quais interesses defende. Já na mensagem em que apresenta o documento da “Estratégia”, Trump diz que:

“Desde o meu primeiro dia no cargo, restauramos as fronteiras soberanas dos Estados Unidos e mobilizamos as forças armadas americanas para impedir a invasão do nosso país. Eliminamos a ideologia de gênero radical e a insanidade woke das nossas Forças Armadas e começamos a fortalecer o nosso exército com um investimento de US$ 1 trilhão. Reconstruímos nossas alianças e fizemos com que nossos aliados contribuíssem mais para nossa defesa comum — incluindo um compromisso histórico dos países da OTAN de aumentar os gastos com defesa de 2% para 5% do PIB. Liberamos a produção de energia americana para recuperar nossa independência e impusemos tarifas históricas para trazer indústrias críticas de volta para casa.”

Este parágrafo já resume a política interna e externa do segundo governo Trump. Começa pela “restauração das fronteiras” – de fato, a guerra não apenas contra imigrantes, mas também contra a população não-branca ou assim considerada – e passa para o ataque contra a diversidade sexual e de gênero (tratada como “ideologia de gênero”, “insanidade woke”) e para o fortalecimento das forças armadas. Menciona imposições aos “aliados” (que, aqui e ao longo do texto, são tratados como subordinados), o uso das tarifas, o objetivo de “trazer indústrias críticas de volta para casa”. Fala da “libertação” dos acordos internacionais (muito insuficientes) que tentam enfrentar o aquecimento global (“liberamos a produção de energia americana para recuperar nossa independência”). O texto ataca a maioria dos governos europeus, que estariam colocando a Europa diante da “perspectiva real e mais sombria do desaparecimento da civilização”, tanto por sua submissão a órgãos transnacionais (entre os quais a União Europeia) “que minam a liberdade política e a soberania” quanto por sua política de imigração (que consolidam a Europa também como território multicultural). Diz que a “influência crescente” de partidos de extrema-direita europeus (chamados de “patrióticos”) é “causa de grande otimismo”. O texto trata da disputa econômica com a China, mas o tratamento deste país (e da Rússia) é muito mais respeitoso.

Para os povos do Brasil e da América Latina, o mais grave do documento é o que diz do suposto “hemisfério ocidental”. Diz que a “doutrina Monroe” (“A América para os americanos”) deve ser reafirmada e aplicada “para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental e proteger nossa pátria e nosso acesso a regiões geográficas estratégicas em toda a região”. Afirma que “esse ‘Corolário Trump’ à Doutrina Monroe é uma restauração sensata e potente do poder e das prioridades (norte)-americanas, consistente com os interesses de segurança dos Estados Unidos”. Toda a proposta retoma a ideia de que a América Latina é o quintal dos EUA (completada pela adição do Canadá e da Groenlândia à lista de países e territórios a cujo controle os EUA teriam direito).

O texto explicita que o governo Trump recorrerá ao maior arsenal bélico do mundo para defender seus interesses, sempre que julgar conveniente. É o que tem sido demonstrado, por exemplo, com o tratamento dado à Venezuela desde o início do governo Trump. Depois de meses de ameaças, acusações de “narcoterrorismo”, apreensão de embarcações (com assassinatos de tripulantes), militares dos EUA sequestraram o presidente Nicolás Maduro e a deputada, e sua esposa, Cília Flores, usando para isto 20 bases militares, 150 aviões, helicópteros, drones de última geração e outras tecnologias que facilitaram um ataque cibernético que chegou a derrubar a energia e o sistema de segurança aérea de Caracas. Houve mais de 100 mortos, inclusive civis (vítimas de bombardeios). Um pronunciamento de Trump confirmou que o objetivo principal da ação militar é o controle do petróleo venezuelano, e que os planos são de converter a Venezuela em uma colônia estadunidense. Trump tem afirmado também que pode atacar outros países latino-americanos, estando Cuba como primeiro alvo, além da Groenlândia. Obviamente, diante desta agressão e destas ameaças impõe-se unidade anti-imperialista latino-americana, solidariedade à Venezuela e exigência de soltura de Nicolás Maduro e Cília Flores. Ainda que sejamos críticos ao caráter autoritário do governo Maduro, entendemos que somente as e os venezuelanos podem operar uma mudança de regime.

O ataque à Venezuela pareceu demonstrar um novo caminho para os EUA se imporem militarmente: no lugar de invasões prolongadas, com altos custos financeiros e humanos, intervenções pontuais que aniquilam a cúpula do regime para coagir as novas lideranças a se submeterem aos interesses estadunidenses. A fórmula foi testada no Irã (numa guerra que transbordou para o Líbano e toda a região) e seria replicada em Cuba se o exército iraniano não tivesse transformado a guerra em cara e custosa, provocando desgastes de Trump com sua base MAGA.

O governo Trump deixou evidente seu caráter neofascista. A extrema-direita é hoje o campo político mais dinâmico e com mais centralidade na conjuntura, sendo a principal beneficiária, até agora, do militarismo, da crise de hegemonia, da crise econômica e das mudanças nas comunicações. No entanto, não há um processo de ascensão linear e de crescimento desse campo. Há instabilidades advindas da dificuldade de oferecerem respostas concretas à classe trabalhadora. Com o custo da vida aumentando como consequência da guerra, as contradições se acumulam: a polêmica em torno do caso Epstein, divergências públicas de apoiadores de Trump por sua mudança de posição sobre a guerra, os conflitos com o Papa e sua base cristã, a crescente rejeição ao sionismo na sociedade americana, com isso a rejeição Trump segue aumentando (ainda que se mantenha uma base consolidada de 30% de apoio) e já se vêem até movimentos que questionam a sanidade de Trump para permanência no comando do país e já se dá como certa uma derrota nas eleições de “midterms” em novembro, em que a perda de maioria na Câmara e no Senado, podem levar a um impeachment. A pergunta que se faz é se Trump terá condições de implementar um golpe institucional em novembro e permanecer no poder.

Há também contradições entre o nacionalismo evocado pela extrema direita no mundo e sua capacidade de construir alianças ou uma internacional fascista. O belicismo de Trump, ou mesmo de Netanyahu, trazem problemas para a extrema direita européia e latino-americana. Assim como as taxas de Trump provocam dificuldades para a extrema direita brasileira, a derrota de Orban demonstra que esse campo político também tem limitações.

Embora a esquerda, depois da enorme derrota ideológica para o neoliberalismo, tampouco tenha sido capaz de dar respostas às crises, potentes processos de resistências seguem despontando em todo o mundo. Exemplos disso são os movimentos de solidariedade à Palestina, os levantes nos EUA contra a política agressiva aos imigrantes e contra o governo Trump em geral, as mobilizações antinazistas na Alemanha e Europa, e até mesmo expressões interessantes no campo eleitoral, como a vitória socialista de Zohan Mamdani na prefeitura de Nova Iorque, a crescente audiência do DSA e protagonismo da esquerda do partido Democrática nos Estados Unidos, a vitória eleitoral de Gustavo Petro, nas eleições parlamentares colombianas, e em certa medida o governo de Claudia Sheinbaum, e o crescimento da França Insubmissa nas eleições municipais. Tem havido também revoltas populares amplas, da Europa à Ásia, às vezes até capazes de derrubar governos (como na Coréia do Sul ou no Nepal).

A mobilização nos EUA contra as políticas neofascistas de Donald Trump tem crescido. É importante notar que o governo Trump agride simultaneamente nos planos interno e externo, em várias frentes, como parte de um mesmo projeto de dominação, o que favorece a unificação das lutas fora e dentro dos Estados Unidos. Nunca uma abordagem “campista” foi tão contraproducente. Os enfrentamentos fundamentais não se dão entre países ou campos, mas entre classes sociais. Dada a superioridade militar dos EUA, a derrota do projeto de recolonização da América Latina depende sobretudo da mobilização popular nos EUA, e o mesmo pode ser dito da libertação da Palestina e do fim dos ataques ao Irã e ao Líbano.
A análise concreta das experiências que foram bem sucedidas no enfrentamento à extrema direita nos leva a uma conclusão estratégica relevante: uma compreensão “neo etapista” da conjuntura, que substitui um horizonte revolucionário por uma limitação das tarefas atuais ao enfrentamento da extrema direita, está equivocada. Por óbvio, são necessários nesse enfrentamento a composição de frentes e alianças com setores que apostam na conciliação de classes, mas a entrega da responsabilidade do enfrentamento à extrema direita a esses setores pode resultar em nos confundirmos com a defesa de um status quo cada vez mais desgastado. Por isso, a composição de qualquer frente nos exige a manifestação em todos os momentos de posições próprias e consequentes. Soma-se a isso o fato de que os curtos prazos para evitar a degradação da vida no planeta nos exigem um horizonte de superação do capitalismo e um programa e uma estratégia ecossocialistas e revolucionários.

Colonialismo, racismo e fundamentalismo: a base do fascismo à brasileira

A extrema direita brasileira deve ser compreendida como parte do fenômeno global que se ancora na estratégia antipopular, conservadora e autoritária para a crise econômica. No entanto, encontrou na sociedade brasileira outros elementos que lhe permitiram resiliência, mesmo com as recentes derrotas eleitorais. O Brasil é um país alicerçado historicamente no colonialismo patriarcal e escravista, profundamente desigual e que, em nenhum momento, conseguiu desmontar os aparatos repressivos militares constituídos em períodos autoritários, tendo realizado todas suas transformações estruturais a partir de pactos de elites.

Além disso, a política de modernização conservadora implementada nos governos petistas ampliou a concentração de terras e garantiu a fonte de poder das bancadas ruralistas. A indústria extrativa multiplicou por seis sua participação no PIB brasileiro nas últimas três décadas. Acompanhado de uma primazia do agronegócio e da mineração, esse processo acelerou a desindustrialização, reduzindo empregos com melhores remunerações, relegando aos setores mais precarizados da classe a recorrerem ao setor de serviços e ao trabalho mediado pelas plataformas.

O arcabouço ideológico que encontrou espaço nesse processo foi aquele produzido pelo encontro da teologia da prosperidade com o ultraconservadorismo, cuja expansão nas periferias urbanas e rurais desassistidas pelo Capital e pelo Estado, criou bases eleitorais populares para parlamentares que atuam contra os interesses da própria classe trabalhadora. Já os aparatos repressivos e punitivistas encontram sua renovada justificativa na (pseudo)“guerra às drogas” produzindo situações de violência urbana consolidada nos grandes centros e já capilarizada nos pequenos municípios. Seja por meio da política de extermínio dos aparatos policiais e/ou pelas disputas territoriais entre facções, o medo disseminado se torna terra fértil para o avanço do populismo penal e a legitimação do genocídio da juventude negra. Enquanto para a extrema direita europeia e americana o inimigo é, sobretudo, externo, o imigrante que chega; para nossa extrema direita, o inimigo é interno, negro, indígena, pobre e periférico.

O conjunto desses processos permitiu à emergente extrema-direita se apresentar como a direção ideológica da direita fisiológica brasileira conhecida hoje como Centrão. Esse campo oriundo de oligarquias regionalizadas e diversas vezes se constituindo como dinastias políticas protagonizou o golpe parlamentar de 2016 buscando maiores fatias do orçamento público brasileiro e estabilidade no poder. Estruturaram o maior retrocesso em termos de disputa institucional no Brasil com o estabelecimento das emendas parlamentares e do fundo eleitoral em seu formato atual, respectivamente, mecanismos de congelamento e degradação da correlação de forças na sociedade e nos partidos políticos. Mas, pela falta de projeto de sociedade que os caracteriza, aderiram facilmente ao programa ultraneoliberal, autoritário e golpista oferecido pela extrema-direita.

O Bolsonarismo, como expressão principal da extrema direita brasileira, teve reveses importantes nos últimos anos: a derrota eleitoral de 2022, as condenações nos processos judiciais contra o núcleo de poder do governo anterior, em particular a do próprio Jair Bolsonaro, e até mesmo as dificuldades recentes de mobilização. Ainda assim, mantém capilaridade social, renovação de quadros, peso parlamentar e capacidade de pautar o debate nacional, apoiado pelo Centrão, pelo agronegócio e por redes digitais próprias. Cresceu em aparatos nas últimas eleições, renovou quadros (Michele, Tarcísio, Nicolas, além de Flávio Bolsonaro, que encostou em Lula nas pesquisas eleitorais), possui expressão real nos parlamentos, em seus diferentes níveis, e com capacidade de pautar o Centrão, que hoje domina metade das cadeiras no Congresso.
Portanto, não podemos nos iludir com o momento de ajuste tático entre eles, e compreender que as raízes de sustentação da extrema direita brasileira seguem intocadas, mesmo no atual governo Lula. Um exemplo dessa força está na ampliação do processo de criminalização das lutas, que segue avançando sobre movimentos sociais, comunidades e territórios inteiros, comandados pela extrema direita, grileiros, empresários do agro, milícias, políticos e seus asseclas. A sanha autoritária de criminalização da luta e de tentativa de eliminação da esquerda tem chegado com força aos parlamentos. Um exemplo nítido é a perseguição e ataque aos mandatos combativos da esquerda no Brasil.

A Conciliação de Classes e o Pacto das Elites

A resposta do governo Lula III à extrema direita ocorre nos marcos estreitos da institucionalidade burguesa e da governabilidade conservadora, mantendo intactos os pilares estruturais que permitiram seu crescimento. Isso ocorre pela manutenção da estratégia de conciliação de classes adotada pelo petismo. Ainda mais que, no atual contexto, essa estratégia além de equivocada se torna anacrônica. Os primeiros governos Lula se deram em um contexto econômico global que permitiram ao Brasil crescimento e estabilidade, abrindo margem para uma política de ganha-ganha em que o aumento do lucro das diversas frações burguesas fosse acompanhado por medidas de melhoria das condições materiais da classe trabalhadora, desde que não fossem adotadas quaisquer medidas que comprometessem a concentração de terras e do capital. Isso não significou um governo anti-neoliberal, pelo contrário, os governos Lula I e II avançaram em uma série de privatizações e ataques aos trabalhadores, como a reforma da previdência.

Essa situação de estabilidade se expressou, à época, com uma tática de construção de maiorias parlamentares com base na concessão de espaços no governo a setores da direita fisiológica brasileira, diminuindo a oposição a medidas populares. Entretanto, essa composição não se fez sem que o petismo tivesse que abrir mão de eixos programáticos centrais, como nas pautas de combate às opressões, defesa dos direitos trabalhistas e reforma agrária, ao mesmo tempo em que esvaziou os processos de mobilização social e popular, agora direcionadas para espaços institucionais de conciliação e adequação aos limites das políticas públicas.

Em suma, o que conhecemos por estratégia de conciliação de classes é em certa medida a reedição da lógica de pactos de elites, profundamente absorvida pelo funcionamento institucional e parlamentar brasileiro, executada por um partido oriundo da classe trabalhadora que, devido ao contexto econômico, logrou garantir melhorias para a classe trabalhadora ao custo de abrir mão de reformas estruturais. O anacronismo da replicação dessa estratégia no governo Lula III se dá em primeiro lugar pelo fato de que o contexto econômico permanece sendo de crise, sem margem para uma política de ganha-ganha, tendo sido essa a responsável pela ruptura de pacto que levou ao golpe parlamentar de 2016.
Além disso, a estrutura institucional brasileira passa por mais um ciclo de autonomização das oligarquias políticas com a captura, ampliação e imposição das emendas parlamentares e direcionamento do controle orçamentário para o congresso, limitando em muito a capacidade de cooptação de setores fisiológicos. Ignora, também, as mudanças nas estruturas de poder da sociedade brasileira decorrentes do crescimento do fundamentalismo religioso, da plataformização dos postos de trabalho, do impacto político das redes digitais, a maior hegemonia do agronegócio e do capital financeiro na agenda econômica, e a aceleração da crise climática e das catástrofes socioambientais. A manutenção da estratégia de conciliação de classes nesse contexto resulta em um governo mais frágil, sem melhorias consistentes para a classe trabalhadora fora vitórias pontuais, mais rendido aos interesses da direita fisiológica brasileira e sem capacidade de mobilização popular, portanto, de levar a cabo o enfrentamento à extrema-direita e suas raízes estruturais. Os raros momentos em que houve algum enfrentamento, se deram quando o governo se viu encurralado, como o ocorrido no caso das tarifas de Trump ou na tentativa do centrão de inviabilizar a recuada agenda econômica do governo. cabe ressaltar, que mesmo esse débil e improvisado combate teve como resultado a aprovação da ampliação da isenção do Imposto de Renda.

Em que pese a derrota eleitoral de Bolsonaro em 2022 e a contenção da tentativa de golpe de 8 de Janeiro, as limitações apontadas com relação à estratégia de conciliação de classes e a aposta em uma campanha sem um caráter de classe e mobilização social, em nome da ampliação das alianças à direita, resultaram na estreita margem de vitória e na incapacidade do governo de aplicar o tímido programa apresentado no processo eleitoral. A vitória do Centrão e da extrema-direita nas eleições de 2024, seu protagonismo na agenda parlamentar e nos debates na sociedade são outras demonstrações da insuficiência e dos riscos da manutenção desta tática.

O governo federal não tem conseguido apoio popular nas pesquisas eleitorais, apesar dos relativos números positivos na economia – inflação estável, desemprego em queda, crescimento consistente – e conquistas sociais importantes do governo – redução da fome, ampliação de programas sociais, valorização do salário mínimo, redução e isenção de imposto de renda (com uma importante, ainda que inicial, tributação dos mais ricos). Em parte porque essa bonança econômica se dá num mercado de trabalho reestruturado pelo golpe e sua contra-reforma trabalhista e pela desregulamentação do mercado de apostas digitais, que também pressiona para o endividamento das famílias. Mas o que explica o bom desempenho de Flávio Bolsonaro nas pesquisas, para além do desencanto com o Governo petista, é o impulsionamento de conteúdos de extrema direita nas redes digitais (inclusive pelas Bets), o sequestro do orçamento pelo Centrão, a audiência das igrejas fundamentalistas e a força do agronegócio. As raízes da extrema direita seguem intocadas pela frente ampla que elegeu Lula – tanto que qualquer candidato que concorra contra o petista está pontuando bem nas pesquisas.

PSOL: ir além da conciliação para o enfrentamento ao fascismo e a defesa do ecossocialismo

Por isso, cabe ao PSOL pautar a necessidade de um programa classista, voltado à transformação social. Na quadra eleitoral, o partido precisa de campanhas eleitorais alicerçadas em processos de mobilização, mantendo sua independência política para adotar uma postura oposta ao adesismo acrítico, tensionando à esquerda os limites da frente em torno de Lula e sua própria composição.

Reconhecemos que o petismo segue sendo a maior força política da esquerda na sociedade e que a permanência do fascimo e do golpismo na conjuntura nos exigirá por hora a contínua disposição para compor frentes, sem sectarismos. Ocorre que a esquerda brasileira tem de forma equivocada limitado seu papel conjuntural a composição da própria frente ampla em si, diluindo-se nos limites estratégicos que são impostos pela mesma. Dessa forma, se reproduz a aposta tática em derrotar paulatinamente a extrema direita através de vitórias eleitorais e parlamentares, cada vez mais difíceis, e de concessões programáticas a setores do centrão como mecanismo de composição de maioria.

Nosso entendimento é que é tarefa da esquerda radical transcender os limites da frente ampla e simultaneamente buscar a unidade de ação da classe trabalhadora em torno de sua própria agenda de lutas. Devemos romper com o sinal de igual que parte da esquerda tem colocado entre frente ampla e frente única por um lado, e, por outro lado, romper com a compreensão de que tais táticas são mutuamente excludentes . Ou seja, devemos nos somar a lutas que defendem as liberdades democráticas e sejam mais amplas, mas sem abandonar o terreno de classe para unificar nossas lutas. Os processos de mobilização vitoriosos contra a PEC da blindagem, convocados com protagonismo do PSOL, mesmo com resistências e boicotes do governo, são exemplos do tipo de unidade e iniciativa que precisa ser tomada para além dos limites impostos pela frente ampla.

O processo de agravamento conjuntural da última década foi acompanhado de mobilizações e resistências por parte das e dos explorados e oprimidos, ainda que as ações de massa tenham sido pontuais. O dinamismo do movimento feminista, o processo de renovação de vanguarda e crescimento do movimento antirracista, a crescente legitimidade dos movimentos de pauta ecossocialista e as lutas de trabalhadores, incluindo os plataformizados, nos fornecem caminhos e pistas da unidade a ser construída no Brasil.

O diálogo com esses movimentos pressupõe que a esquerda radical coloque no centro da agenda a discussão da natureza da relação com o governo Lula, uma vez que são essas as pautas que normalmente encontram os recuos mais expressivos do governo frente às pressões do centrão na composição de governabilidade. Em nossa compreensão será impossível avançar em experiências de unidade de classe sem que haja independência da esquerda radical frente ao atual governo. A autonomia do PSOL, nesse contexto, deve ser protegida dos assédios advindos da estratégia de conciliação de classes
petista e, também, do aparato de estado das emendas e fundos eleitorais que objetivam, na verdade, a burocratização e a acomodação.

Permanecemos em uma conjuntura que não comporta uma posição de oposição de esquerda a um governo acossado pelo Centrão e ameaçado pela extrema direita. No entanto, compreendemos que não cabe à esquerda radical cumprir o papel de porta-voz do próprio governo, de negociar em nome dele, abrir mão de posições próprias quando necessário ou conter seu enfrentamento ao Centrão em nome de acordos constituídos pelo governo. Nosso papel deve ser, sobretudo, de mobilização social e de disputa ideológica, contribuindo para que o pêndulo social seja tensionado à esquerda.

Até aqui a resolução adotada pelo PSOL imediatamente antes do início do governo Lula III nos permitiu apresentar candidatura própria contra o Centrão nas duas eleições da Câmara, a votação contrária de nossa bancada contra as medidas de austeridade (arcabouço fiscal e pacote de ajuste fiscal) e candidaturas próprias nas eleições municipais em diversas cidades em que o PT apoiou o centrão. A decisão de mais de 75% da direção partidária de rechaçar a coação de Boulos para que o partido se incorporasse à federação do PT foi também uma importante demonstração de autonomia do partido (que acabou fortalecido com a entrada de novos quadros eleitorais). Por outro lado, há um nítido esvaziamento das instâncias partidárias e da própria militância. Além disso, parte de nossa bancada parlamentar tem se contido em críticas a limitações do próprio governo em diversos temas como a política econômica de forma mais global, o orçamento residual das políticas para as mulheres, para a igualdade racial e para indígenas, e na questão ambiental como na questão da exploração de Petróleo na Foz do Amazonas, por exemplo. Nesse sentido, a ida de Guilherme Boulos ao ministério do governo Lula vai na direção contrária às necessidades do PSOL, da esquerda como um todo e dos processos de mobilização da classe. Apresenta-se o risco de que a atuação institucional do partido fique ainda mais acomodada e restrita à defesa do governo.

Por isso, mais do que nunca, reforça-se a necessidade de funcionamento orgânico, democrático e autônomo de nossas instâncias partidárias e bancadas parlamentares, recuperando e reafirmando a independência de nosso partido, nos desvinculando da governabilidade conservadora da política de conciliação de classes e de perspectivas neoetapistas. Devemos manter a disposição da unidade ampla, mas não nos confinaremos a seus limites para o enfrentamento à extrema direita. Para isso, devemos construir unidade partidária e agenda política próprias, que dialoguem com as resistências existentes e construam, com elas, um novo campo político à esquerda que defenda um projeto ecossocialista para o Brasil e o mundo.

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