A centralidade do feminismo na organização política revolucionária ecossocialista

Uma leitura feminista do capitalismo: a centralidade da opressão de gênero e da reprodução da classe trabalhadora.

Resolução da Ecossocialistas

Na atual organização social capitalista, a opressão de gênero gera lucro! A exploração humana não seria possível sem uma estrutura de gênero que produz e reproduz a classe trabalhadora (força de trabalho) de forma consistente, estável, barata e coordenada à produção de mercadorias, possibilitando a acumulação de capital e manutenção do capitalismo como um todo. A exploração capitalista se utiliza do trabalho assalariado/precarizado em sua totalidade, mas descarrega desproporcionalmente sobre as mulheres e pessoas que gestam o trabalho de reprodução, de cuidado e de manutenção da vida, o chamado trabalho reprodutivo. 

Assim, ressaltamos que a contradição entre trabalho produtivo e reprodutivo constitui uma das bases da exploração, moldando historicamente nossas vidas e compreensões de mundo. Uma das formas fundamentais de como o capitalismo molda e reforça as opressões de gênero frente às suas necessidade de reprodução da força de trabalho e acumulação de capital é a generificação cis-hetero e binária dos corpos desde a primeira infância e a construção social de papéis diferentes e desiguais para homens/meninos e mulheres/meninas, onde, em geral, as mulheres cis são estimuladas aos trabalhos do cuidado; enquanto homens cis são estimulados a assumirem espaços de liderança, liberdade, criatividade e tem a violência como algo autorizado para que eles se mantenham no poder.

O feminismo como ferramenta para a ação política e a construção revolucionária

“Medo nós tem, mas não usa” – “É melhor morrer na luta do que morrer de fome” – Margarida Alves MST

Ao desnaturalizar a opressão de gênero, ao denunciar a forma desumana como o capitalismo precariza a vida humana – jogando sobre as mulheres, pessoas lidas como mulheres e sobre as populações racializadas o trabalho de reprodução social gratuito –, e ao lutar contra a violência que aflige as mulheres e a comunidade LGBTQIAPN+, a luta feminista atinge pilares fundamentais do capitalismo: a divisão da classe trabalhadora e a relação entre trabalho produtivo e reprodutivo. Afinal, o feminismo anticapitalista, antirracista e ecossocialista – como é o nosso – tem como objetivo  acabar com a exploração, opressão e alienação humana, sendo um instrumento para a emancipação de todas as pessoas oprimidas pelo capitalismo patriarcal, cis-hetero-nomartivo e racista. 

Dessa forma, afirmamos que o feminismo é a bússola de um programa revolucionário e, portanto, deve ser um dos pontos de partida da nossa política. Nosso projeto ecossocialista, feminista, antirracista, anti-LGBTQIAPN+fóbico e anticapacitista, a serviço da classe trabalhadora e de seus setores mais oprimidos, deve se expressar plenamente na nossa concepção de partido, de organização e na nossa atuação junto aos movimentos sociais. Afinal, um partido que se reclame socialista só o será uma vez que se demonstre também feminista, anticapacitista e antirracista, buscando movimentar toda a classe trabalhadora. 

Nossas organizações devem tomar para si a tarefa de confluir lutas, o que requer uma atuação dedicada a fortalecer os múltiplos espaços de organização da classe trabalhadora, compreendendo que essa classe é plural e tem gênero, raça, sexualidade, geração e regionalidade.

Um feminismo diverso: gênero, raça, classe, meio ambiente e alguns apontamentos

Não serei livre enquanto alguma mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas – Audre Lorde

As últimas décadas têm evidenciado um crescimento do feminismo. Esse processo tem sido marcado por elementos interessantes como sua massificação, diversificação dos métodos de luta e pelo aumento da representatividade política das mulheres (inclusive das mulheres trans e indígenas). Mas também constatamos uma pulverização teórica dos feminismos, suas lutas, e um grande crescimento do feminismo liberal. Além disso, o crescimento dos feminismos nos últimos anos não conseguiu diminuir a força da extrema direita e a violência de  gênero, que seguem se ampliando.

Em nossas organizações e movimentos, devemos nos pautar por um feminismo revolucionário, socialista, ecossocialista, antirracista, antiLGBTQIAPN+fóbico, anticapacitista não essencialista, centrado na classe trabalhadora, disputando as concepções liberais dos debates anti-opressões e ambientais. 

Nosso feminismo não se baseia na narrativa tradicional das “ondas do feminismo”, que não reconhece a contribuição das mulheres negras e indígenas escravizadas, das mulheres socialistas revolucionárias e tantas outras. Pelo contrário, reivindicamos o acúmulo do feminismo socialista/marxista do século XIX e XX, como as experiências das Internacionais, da Revolução Russa e do governo soviético em seus primeiros anos, pensamentos e ações formuladas por figuras como Flora Tristan, Clara Zetkin e Alexandra Kollontai. A essas trajetórias, se somam o legado de Aqualtune e Dandara dos Palmares, Thereza de Benguela, Lélia Gonzalez, Tuiré Kayapó, Luiza Mahin e Maria Lira Mulata, Maria Felipa e Maria Quitéria, Nzinga, Esperança Garcia, Xica Manicongo, Harriet Tubmann, Soujorner Truth e milhares de anônimas que resistiram à escravização e ao etnocídio indígena.

Assim, reconhecemos que o processo colonial interfere na forma com que as mulheres são vistas na sociedade, e, portanto, pleiteamos um feminismo atento às particularidades do sul global, exigindo que se enfatizem as experiências das mulheres em sua diversidade e as de todas as pessoas trans: homens e mulheres trans e pessoas não-binárias. De igual modo, uma vez ecossocialistas, nos firmamos na compreensão de que gênero, raça e classe influenciam de forma determinante quem são os atingidos pelos impactos da crise climática e como esta se articula com a crise da reprodução social. 

Devemos ter um feminismo potente e diverso, que reconheça o papel das mulheres e pessoas trans como vanguarda de diversas lutas anticapitalistas, socialistas e por direitos. A resistência nos territórios, a luta pelas florestas de pé, pelas nossas montanhas livres da mineração desenfreada capitalista, pelo nossos rios vivos e abundantes, não pode acontecer separada da luta feminista. A violência que explora e oprime os corpos lidos como femininos tem as mesmas raízes capitalistas e coloniais que sustentam o ecocídio e o feminicídio. 

Nas lutas do movimento feminista, devemos sempre expor como o capitalismo é o responsavel pela perpetuação das opressões e contribuir para combater as concepções de opressões que não são anticapitalistas. A luta contra as violências que atingem mulheres e LGBTQIAPN+ pela defesa dos seus direitos deve considerar como classe, raça, orientação sexual, identidade de gênero, origem/regionalidade, capacidades/deficiências e outros elementos interagem para a formação de diferentes realidades e experiências. Assim como a classe trabalhadora é diversa, as mulheridades também são. É preciso reconhecer a contribuição fundamental e o lugar das LBTs no movimento feminista e como os movimentos LBGTQIAPN+ e o movimento feminista podem confluir. Da mesma maneira, devemos garantir destaque para as lutas e o protagonismo das mulheres negras e indígenas. Quando as mulheres negras e não brancas avançam, toda a classe trabalhadora avança junto com elas.

Com base nesses acúmulos e tendo um feminismo sempre aberto à construção em mente, devemos valorizar os debates e acúmulos feministas da IV Internacional, mas com disposição para ampliá-los. No que pese sua relevância enquanto propositora de marcos transversais, a IV ainda apresenta limites em suas agenda de gênero, visto que sua orientação política é majoritariamente branca, europeia e cisgênera. Devemos contribuir para colorir e transicionar o feminismo da IV Internacional, fortalecendo os debates acumulados pelo feminismo negro, indígena, do sul global e do movimento trans. O Brasil tem relevância e destaque nessa tarefa. Nossa relação com a IV deve ser ativa, reconhecendo o potencial de formulação, troca e influência entre as duas organizações.

Além do exposto, precisamos continuar acumulando e debatendo entre nós perguntas centrais que uma organização revolucionária deve responder: Quem são os sujeitos do feminismo? Como e por onde devemos atuar para organizar tais sujeitos? Como nos organizar para a luta feminista hoje no Brasil e no mundo? Essas respostas guiam nossa teoria e prática política feminista.

O feminismo é tarefa de todos nós!

Marielle perguntou e nós também vamos perguntar: quantas mais tem que morrer para essa guerra acabar? 

O feminismo propõe a luta pela vida e, nesse sentido, também lida cotidianamente com os altos índices de feminicídios, transfeminiscídios, lesbocídios e a naturalização da violência de gênero no país. A dureza dessa luta exige o comprometimento e a união de todas as pessoas da organização. Se compreendemos que o capitalismo reforça as violências de gênero que respaldam a manutenção e ampliação das desigualdades, a retirada de direitos e a exploração da classe trabalhadora, a luta revolucionária é em seu principio uma luta feminista.

Com isso, é fundamental que a organização se proponha, coletivamente, a tomar tais debates como estratégicos, construindo acúmulos sobre a teoria e a práxis feminista; pensando o funcionamento das instâncias internas com paridade de gênero; se atentando sobre a divisão das tarefas políticas de forma a evitar a sobrecarga das companheiras; enfrentando eventuais situações de opressão de gênero que possam despontar no seio da organização; levando nossos acúmulos feministas a todos os espaços nos quais atuamos.

Em suma, a luta contra o sistema capitalista demanda atenção e comprometimento com os avanços e contribuições do movimento feminista. Reconhecer isso, significa compreender que os caminhos que a luta feminista aponta não se resumem a conferir mais liberdade e melhorar a vida de um grupo de pessoas – se fosse, já seria o suficiente -, mas são ainda mais cruciais por se apresentarem como incontornáveis para a emancipação da classe trabalhadora. Portanto, é tarefa de todas as pessoas que estão dispostas a construir nossas fileiras a disposição para o exercício da prática, leitura e formação feminista, entendendo que esse é um princípio inegociável para as nossas organizações e para a organização que está nascendo da nossa confluência. 

Sem feminismo, não há ecossocialismo!!! 

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